Voltar ao Distrito Federal, na Cidade do México, foi uma escorregada, um deslize num túnel do tempo, entre as curvas serpeantes, ao descer a montanha, desde rio Frio de Juarez a Ixtapaluca.
Ao cair no meio, ao mar de luzes que balançavam, qual lago cercado de montanhas, no vale do México, flutuou o mundo nas suaves ondas formadas por milhões de luzes que ondulantes e compactas, elevam-se e fluiam como o mar sendo preso entre as mãos dos vulcões apaixonados, da mulher indígena dormida a meia noite, Iztaccihuatl, e seu amante desconsolado, o Popocatepetl.
Os morros explodiam em ondas que ao elevar suas luzes as espalhavam pelo céu, como brisa úmida e refrescante, já no início do inverno. E os moradores eram vomitados desde dentro de suas casas pelo mar de luzes nas enxurradas que alagaram as periferias cinzas da Cidade do México, nas últimas chuvas do inverno.
Já fostes lago seco, e antes lago cheio, ilhas, e chinampas ancladas com āhuexōtl e āhuēhuētl, até os canais de Xochimilco. Pois esta noite, ao cair desde a montanha, mergulho em plena tormenta num oceano de luzes brancas e amarelas. E a agitação é porque o Popo destapou a rolha no fundo do poço, e o mar de pessoas, velas, lampiões e lâmpadas vão-se pelo ralo.
Por ser no hemisfério norte, o redemoinho chupa em espiral anti-horario e as marés levantam as águas, como fossem fogos de artifício, o vulcões derramando sua lava acesa em milhões de lâmpadas urbanas.
Ao afundar meu ônibus no frenesi da cidade mais grande do mundo, vinte milhões de almas, e ver rios de luzes brancas e vermelhas, e casas e mais casas, bairros e periferias, a maior periferia do mundo, parece que todo fica em calma, e no meio ao furacão que devora a cidade, distante, um vovó da rua coleta papelão, latas, lixo e seu cachorro o admira e acompanha.
Essa calma me lembrou São Paulo, essa curva do rio Jatapu que os Wai Wai batizaram com o nome da maior cidade brasileira, pois ao passar suas lanternas a noite, os olhos de centos de jacarés brilham, mostrando a exuberância da selva, da Amazônia, assim emerge uma zoocidade, Jacaré City, a civilização flutuando num rio cercado de matas e espíritos.
Da mesma forma, a Cidade de México, de 685 anos, nos recebia ao chegar a Taxqueña, já os rios e luzes ferventes se acalmando e freando ao chegar no semáforo vermelho.
Pensei que era uma revolta, um levantamento popular pegando fogo, uma revolução das almas contra o Bicentenário. Pois não, era a cidade mesmo, sua voragem, antes de terminar de sair os últimos pingos pelo ralo do Lago Texcoco. Cada um rema sua canoa fugindo dos redemoinhos menores, das pororocas, das marés lunares, os asaltos, os sequestros, os estupros, desamores, desvelos.
Apenas espero chegar salvo ao décimo andar do Edifício onde aguardo impaciente a próxima enchente milenarista que trará de novo as águas de volta ao lago.
sábado, 19 de dezembro de 2009
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
MIGALHAS
acendo o cigarro sem pestanejar. me ligo no copo vazio. transbordo. tento encontrar, sem muita esperança, as palavras mais certas. as quebradas, aquelas capazes de me reconstruir. pelo menos a literatura... o impossível sempre me apavora. e eu trago. e eu tomo, com graça, os restos. e eu me descasco sem dó. sem espelho eu vejo minhas sobras. ah, eu vejo as minhas sobras. contento aos mil e um tropeços repetidos que me apavoram. não quero fechar os meus olhos. não quero me banhar em poucas lágrimas. não quero me molhar em migalhas.
SE LIGA!
- tá legal, você vive dizendo que eu não reparo nas suas coisas...
- é verdade! não repara mesmo! até meus cabelos de baixo do braço você nem reclama mais...
- e daí? cansei de cortar o cabelo e nada!
- porra, desde que eu te conheço você raspa essa merda...
- foda-se! nunca é a mesma coisa... a mínima diferença não chega nem perto da sua indiferença.
- você comprou o jornal?
- não!
- tá vendo, não tá mais ligada. é disso que eu tô falando faz meses...
BETTY BOOP
vamos pra rua, baby
vamos dar um nó na razão
vamos cair de cambalhota na esbórnia
geral total esquece o sal de fruta e coisa e tal
não dá pra ficar de fora
nem pense em pedir coca-cola
chega de mansinho secreto
sem muitas firulas dos tempos de escola
na real? Betty Boop é nossa maior puta
o passado camufla a merda das mágoas
apenas nos traz o equilíbrio distante
almejado e completamente equivocado
vamos tomar banho de chuva essa noite?
PRA BAIXO, EU? VAI TOMATE CRU!
o lance é o seguinte, não temos lances de sobra. a reserva nem pensa em nos substituir. somos assim mesmo. sem qualquer possibilidade de permutação. outro dia, ouvi de um indivíduo, - cara, mas você tá muito pra baixo... quer saber? tô mais em cima do que qualquer paspalho que pensa que sua vida é uma dádiva divina. e falo isso sem pestanejar. meu caro colega ingênuo, os dias estão contados, não estão? como é que você pode viver numa boa com essa certeza, que ultrapassa a nossa imaginação?
DEIXAR DE EXISTIR
teve um tempo que eu até achei que dava pra levar. porra nenhuma! não dá pra levar porra nenhuma. falo muito do acaso porque não vejo outra saída. é tudo por acaso? mentimos, nos enganamos, somos os maiores farsantes. somos os maiores fracassos. acreditamos nessa configuração direcionada que nos faz pensar em estabilidade, mas é tudo furada. tudo perda de um tempo que nem temos de sobra. tudo desejos de outros. brigamos pelas sobras. brigamos pelas beiradas desajeitadas, sem chances. brigamos pelo que nem sabemos porquê brigamos. empunhamos o discurso - vamos em frente! bobagem... nunca estamos na frente, mas acreditamos, piedosamente, acreditamos, e é isso que nos faz parecer um pouco mais humanos. mas só parecemos...só perecemos, meu irmão...
www.sextascronicas2008.blogspot.com
www.ciadolavrado.com.br
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
LUA CHEIA
- você lembra da época em que ficávamos de bobeira paquerando a lua?
- como é que eu poderia me esquecer de uma maluquice dessa? você vivia dizendo que ela tava afim da gente...
- eu queria te comer e você fazia muito jogo duro na época.
- sei...
- é verdade, esse negócio de não trepar no primeiro encontro é uma babaquice desgraçada. meninas...
- babaquice é essa história de brochar no primeiro encontro. garotos...
- vamos voltar pra lua?
Assinar:
Comentários (Atom)