sábado, 19 de dezembro de 2009

Mergulho Chilango


Voltar ao Distrito Federal, na Cidade do México, foi uma escorregada, um deslize num túnel do tempo, entre as curvas serpeantes, ao descer a montanha, desde rio Frio de Juarez a Ixtapaluca.
Ao cair no meio, ao mar de luzes que balançavam, qual lago cercado de montanhas, no vale do México, flutuou o mundo nas suaves ondas formadas por milhões de luzes que ondulantes e compactas, elevam-se e fluiam como o mar sendo preso entre as mãos dos vulcões apaixonados, da mulher indígena dormida a meia noite, Iztaccihuatl, e seu amante desconsolado, o Popocatepetl.
Os morros explodiam em ondas que ao elevar suas luzes as espalhavam pelo céu, como brisa úmida e refrescante, já no início do inverno. E os moradores eram vomitados desde dentro de suas casas pelo mar de luzes nas enxurradas que alagaram as periferias cinzas da Cidade do México, nas últimas chuvas do inverno.
Já fostes lago seco, e antes lago cheio, ilhas, e chinampas ancladas com āhuexōtl e āhuēhuētl, até os canais de Xochimilco. Pois esta noite, ao cair desde a montanha, mergulho em plena tormenta num oceano de luzes brancas e amarelas. E a agitação é porque o Popo destapou a rolha no fundo do poço, e o mar de pessoas, velas, lampiões e lâmpadas vão-se pelo ralo.
Por ser no hemisfério norte, o redemoinho chupa em espiral anti-horario e as marés levantam as águas, como fossem fogos de artifício, o vulcões derramando sua lava acesa em milhões de lâmpadas urbanas.
Ao afundar meu ônibus no frenesi da cidade mais grande do mundo, vinte milhões de almas, e ver rios de luzes brancas e vermelhas, e casas e mais casas, bairros e periferias, a maior periferia do mundo, parece que todo fica em calma, e no meio ao furacão que devora a cidade, distante, um vovó da rua coleta papelão, latas, lixo e seu cachorro o admira e acompanha.
Essa calma me lembrou São Paulo, essa curva do rio Jatapu que os Wai Wai batizaram com o nome da maior cidade brasileira, pois ao passar suas lanternas a noite, os olhos de centos de jacarés brilham, mostrando a exuberância da selva, da Amazônia, assim emerge uma zoocidade, Jacaré City, a civilização flutuando num rio cercado de matas e espíritos.
Da mesma forma, a Cidade de México, de 685 anos, nos recebia ao chegar a Taxqueña, já os rios e luzes ferventes se acalmando e freando ao chegar no semáforo vermelho.
Pensei que era uma revolta, um levantamento popular pegando fogo, uma revolução das almas contra o Bicentenário. Pois não, era a cidade mesmo, sua voragem, antes de terminar de sair os últimos pingos pelo ralo do Lago Texcoco. Cada um rema sua canoa fugindo dos redemoinhos menores, das pororocas, das marés lunares, os asaltos, os sequestros, os estupros, desamores, desvelos.
 Apenas espero chegar salvo ao décimo andar do Edifício onde aguardo impaciente a próxima enchente milenarista que trará de novo as águas de volta ao lago.

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