domingo, 17 de janeiro de 2010

ESTOU INDO PARA O FIM





tem horas em que os cachorros abaixam a guarda
as estrelas vão dormir solitárias
e o vento simplesmente desaparece
mas eu fico
tem vezes em que os pombos não mais me perturbam
desistem com as minhas mandingas perversas
os mosquitos não são mais páreos pra mim
já sabem que não vou desistir por algumas picadas no braço
o tempo me passa
me acaba
me torce
mas eu fico
ainda posso pensar algumas bobagens
ainda tento sobreviver ao naufrágio
não quero medir forças
apenas tenho consciência de meus dias perdidos
então acelero
sei que estou indo para o fim

POR ALGUNS MOMENTOS




foi até o balcão
vomitou todas as suas dores
esperou atento ao chamado do celular
cansou-se
saiu para tomar ar
encontrou-se com Arnoldo
ele lhe ofereceu um trago sem maldades
beberam horas
passaram-se as horas
foi pra casa com as mesmas dores normais
deitou-se sem escândalos e sem nenhuma reclamação habitual
acordou descontrolado e correu pro hospital

sábado, 19 de dezembro de 2009

Mergulho Chilango


Voltar ao Distrito Federal, na Cidade do México, foi uma escorregada, um deslize num túnel do tempo, entre as curvas serpeantes, ao descer a montanha, desde rio Frio de Juarez a Ixtapaluca.
Ao cair no meio, ao mar de luzes que balançavam, qual lago cercado de montanhas, no vale do México, flutuou o mundo nas suaves ondas formadas por milhões de luzes que ondulantes e compactas, elevam-se e fluiam como o mar sendo preso entre as mãos dos vulcões apaixonados, da mulher indígena dormida a meia noite, Iztaccihuatl, e seu amante desconsolado, o Popocatepetl.
Os morros explodiam em ondas que ao elevar suas luzes as espalhavam pelo céu, como brisa úmida e refrescante, já no início do inverno. E os moradores eram vomitados desde dentro de suas casas pelo mar de luzes nas enxurradas que alagaram as periferias cinzas da Cidade do México, nas últimas chuvas do inverno.
Já fostes lago seco, e antes lago cheio, ilhas, e chinampas ancladas com āhuexōtl e āhuēhuētl, até os canais de Xochimilco. Pois esta noite, ao cair desde a montanha, mergulho em plena tormenta num oceano de luzes brancas e amarelas. E a agitação é porque o Popo destapou a rolha no fundo do poço, e o mar de pessoas, velas, lampiões e lâmpadas vão-se pelo ralo.
Por ser no hemisfério norte, o redemoinho chupa em espiral anti-horario e as marés levantam as águas, como fossem fogos de artifício, o vulcões derramando sua lava acesa em milhões de lâmpadas urbanas.
Ao afundar meu ônibus no frenesi da cidade mais grande do mundo, vinte milhões de almas, e ver rios de luzes brancas e vermelhas, e casas e mais casas, bairros e periferias, a maior periferia do mundo, parece que todo fica em calma, e no meio ao furacão que devora a cidade, distante, um vovó da rua coleta papelão, latas, lixo e seu cachorro o admira e acompanha.
Essa calma me lembrou São Paulo, essa curva do rio Jatapu que os Wai Wai batizaram com o nome da maior cidade brasileira, pois ao passar suas lanternas a noite, os olhos de centos de jacarés brilham, mostrando a exuberância da selva, da Amazônia, assim emerge uma zoocidade, Jacaré City, a civilização flutuando num rio cercado de matas e espíritos.
Da mesma forma, a Cidade de México, de 685 anos, nos recebia ao chegar a Taxqueña, já os rios e luzes ferventes se acalmando e freando ao chegar no semáforo vermelho.
Pensei que era uma revolta, um levantamento popular pegando fogo, uma revolução das almas contra o Bicentenário. Pois não, era a cidade mesmo, sua voragem, antes de terminar de sair os últimos pingos pelo ralo do Lago Texcoco. Cada um rema sua canoa fugindo dos redemoinhos menores, das pororocas, das marés lunares, os asaltos, os sequestros, os estupros, desamores, desvelos.
 Apenas espero chegar salvo ao décimo andar do Edifício onde aguardo impaciente a próxima enchente milenarista que trará de novo as águas de volta ao lago.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

MIGALHAS





acendo o cigarro sem pestanejar. me ligo no copo vazio. transbordo. tento encontrar, sem muita esperança, as palavras mais certas. as quebradas, aquelas capazes de me reconstruir. pelo menos a literatura... o impossível sempre me apavora. e eu trago. e eu tomo, com graça, os restos. e eu me descasco sem dó. sem espelho eu vejo minhas sobras. ah, eu vejo as minhas sobras. contento aos mil e um tropeços repetidos que me apavoram. não quero fechar os meus olhos. não quero me banhar em poucas lágrimas. não quero me molhar em migalhas.

SE LIGA!




- tá legal, você vive dizendo que eu não reparo nas suas coisas...
- é verdade! não repara mesmo! até meus cabelos de baixo do braço você nem reclama mais...
- e daí? cansei de cortar o cabelo e nada!
- porra, desde que eu te conheço você raspa essa merda...
- foda-se! nunca é a mesma coisa... a mínima diferença não chega nem perto da sua indiferença.
- você comprou o jornal?
- não!
- tá vendo, não tá mais ligada. é disso que eu tô falando faz meses...

BETTY BOOP





vamos pra rua, baby
vamos dar um nó na razão
vamos cair de cambalhota na esbórnia
geral total esquece o sal de fruta e coisa e tal
não dá pra ficar de fora
nem pense em pedir coca-cola
chega de mansinho secreto
sem muitas firulas dos tempos de escola
na real? Betty Boop é nossa maior puta
o passado camufla a merda das mágoas
apenas nos traz o equilíbrio distante
almejado e completamente equivocado
vamos tomar banho de chuva essa noite?

PRA BAIXO, EU? VAI TOMATE CRU!




o lance é o seguinte, não temos lances de sobra. a reserva nem pensa em nos substituir. somos assim mesmo. sem qualquer possibilidade de permutação. outro dia, ouvi de um indivíduo, - cara, mas você tá muito pra baixo... quer saber? tô mais em cima do que qualquer paspalho que pensa que sua vida é uma dádiva divina. e falo isso sem pestanejar. meu caro colega ingênuo, os dias estão contados, não estão? como é que você pode viver numa boa com essa certeza, que ultrapassa a nossa imaginação?