quarta-feira, 26 de agosto de 2009

MOLECAGEM

Abriu a porta lentamente com a arma em punho. Foi alvejado no peito aberto. Descuido imperdoável na profissão. Longe da porta, ainda ouviu seu coração reclamar. Teto preto. O tempo fechou geral. Era presa fácil. Levantou a pistola com muita dificuldade, se ajeitou e levou um bicão na mão. O trabuco foi longe. Sem chance de recuperação. Viu seu carrasco aproximar-se. Foi arrastado para dentro do armazém, deixando para trás apenas um rastro de sangue. Permaneceu por muito tempo sem saber direito o que lhe acontecia. Só dor. Facas, alicates sujos de graxa, fios e sacos plásticos. Era uma seqüência punk com os mais sádicos métodos de tortura nazista. Não conseguiu gritar. Sofreu em silêncio, sabia que não seria resgatado dali com vida. Um gato nos dentes de um pitbull raivoso. Viu sua perna esquerda sendo pendurada, aos pingos. A visão embaçou. Esticou-se até alcançar a outra, mas escorregou no seu sangue quente que jorrava. Era o seu fim. Caiu para o lado e quebrou-se todo no chão.
-
Mãnhêeee! O Paulinho quebrou o enfeite da mesa.
- Desgraçado! Foi presente da sua avó. Vem cá que eu vou arrancar sua orelha!
O garoto saiu correndo para o quintal, subiu na mangueira e ficou por lá até a hora do seu pai chegar.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

color-poem

Fábio Almeida de Carvalho


Intercultura

C´est la vie


nem sempre !

en rose

Interculturalidade: a luta concreta pela história

Maxim Repetto[1]

Muito falamos no conceito de interculturalidade, especialmente no contexto do Curso Licenciatura Intercultural, na UFRR. Mas será que temos clareza sobre o que isso pode chegar a significar? Pois os conceitos podem ter diversas acepções e inclusive às vezes sentidos opostos, dependendo de quem use, como e para que.

Utilizar este conceito sem um senso crítico que questione de forma clara sua história e, ao mesmo tempo, o confronte com a situação específica de Roraima e da Amazônia, podem levar à defesa de formulas alienantes submetidas aos processos políticos e sociais de exploração capitalista. Uma proposta intercultural sem análise crítico poderia cair nas armadilhas da "utopia angelical" da interculturalidade, como argumenta Gasché (2008).

Nós mesmos, no Projeto Político Pedagógico do Curso Licenciatura Intercultural (2008), definimos a interculturalidade como um processo de diálogo entre culturas. Hoje vejo que é necessário aprofundar essa definição, pois somente o “diálogo” não garante a construção de novas formas de convívio numa sociedade mais justa, que ao final de contas é o objetivo superior da educação. E nem garante um processo educativo mais participativo e menos alienante.

Contudo, o sentido do diálogo entre culturas refere-se não apenas a desenvolver capacidades para ouvir e falar, mas sobretudo, de refletir e pensar. Isto último numa perspectiva dialógica, que não deve remeter apenas a idéia de um colóquio entre dois (emissor e receptor), mas sim a uma discussão polifônica (BAKHTIN, 1997), sustentada por diferentes referências espaço-temporais, onde idéias, opiniões, conceitos, percepção sobre os processos históricos e do próprio mundo, devem ser compreendidos no complexo emaranhado de situações e atores envolvidos, articulados e desarticulados em diálogos nem sempre claros e isentos de conflitos.

Considero, nesta perspectiva, que quando no curso Licenciatura Intercultural se fecham as portas do diálogo com argumentos excludentes, como o fato de vários de nós não sermos indígenas, ou algum de nós não ser brasileiro, cai-se no engano de pensar que a interculturalidade é apenas um desfile folclórico, onde só podem ser aceitas as idéias próximas às de quem fala. Pois o verdadeiro diálogo implica em aceitar que há opiniões diferentes às nossas, mesmo que não se concorde com elas. Da mesma forma, realizar acusações supérfluas e sem a presença dos acusados, não contribui à compreensão e a superação dos conflitos. Além de negar o direito básico a resposta, base sem a qual o diálogo não existe. Sabemos que o conflito é parte da vida em sociedade (Simel, 1999), mas a sociabilidade nos exige buscar mecanismos para superar os mesmos. E é isso que nutre o debate sobre interculturalidade, a busca de mecanismos de diálogo, de participação e de resolução de conflitos.

Estas considerações são pertinentes já que a interculturalidade surge desde a América Latina, denunciando o Estado monopólico, e às políticas integracionistas e homogeneizadoras concretizadas na idéia da tutela imposta aos povos indígenas. Posiciona-se contra políticas educativas tão arraigadas que promovem um “branqueamento” cultural e a submissão a planos de estudos e às exigências de formulação de projetos políticos pedagógicos nas escolas indígenas, por não promover, ao mesmo tempo, uma reflexão crítica sobre o mundo. As políticas de bilingüismo na prática impuseram o que Profa. Maria do Socorro Pimentel chama de bilingüismo de transição, pois se alfabetiza na língua indígena, para logo impor na escola todo um processo de letramento submetido a cultura e língua nacional.

Confusões como esta tem feito da DEMOCRACIA, um sistema falho e ao serviço de setores dominantes que cada período eleitoral nos iludem com candidatos que nos prometem o céu e a terra. E caímos nessas armadilhas quando achamos que a mera participação em processos eleitorais poderá mudar a situação de exploração que vivem as comunidades indígenas. Mas, esquecemos que nas bases, nas comunidades, estas idéias não estão claras. Há confusão, e pensamos que partir para um confronto eleitoral nos dará uma vitória, que por efêmera, nos revela logo após dos processos eleitorais, que a principal derrota, política e eleitoral, foram historicamente nas urnas das próprias comunidades indígenas. Isso por falta de diálogo, por não esclarecer o que significa a participação em sociedade e quais são os desafios, seja para os povos indígenas, como para o conjunto da sociedade.

Discutir Interculturalidade nos exige, também, discutir as condições materiais do diálogo polifônico. Não pode apenas ficar numa perspectiva conceitual e teórica, deve ter bases sociais, políticas e econômicas.

O conceito do Multiculturalismo, como trabalhado nas sociedades anglosa-xãs, em especial nos Estados Unidos, sob o amparo da democracia liberal, entendendo o liberalismo como o campo filosófico do capitalismo, tem chegado até posições dogmáticas e totalitárias, criando a ilusão de que apenas o reconhecimento da diversidade permite a inclusão e a participação. Assim o “pluralismo pode chegar a sugerir que os indivíduos incorporem valores diferentes em um único ponto de vista e que devem permanecer eqüidistantes de todo dogma” (Mc Laren, 1997, p. 297). Transformando assim a Democracia num vinculo formal entre indivíduos abstratos, desprovistos de cultura e de sua especificidade subjetiva, de forma que a democracia liberal reproduz uma compreensão coletiva do “individuo”. Transformando-se numa falsa promessa do capitalismo, que o suposto consenso disfarça e oculta.

Assim como a democracia, a interculturalidade não pode ser apenas uma regra de procedimentos, mas uma floresta barulhenta onde os grupos sociais, e não apenas indivíduos isolados e desterritorializados ou pseudo iluminados, possam concretizar sozinhos o espírito da participação. Não se trata apenas de construir um salão onde o consenso permita ouvir o silêncio da unanimidade. Acreditamos que a polifonia de vozes deve falar, e alvorotar os salões do poder, fazer sentir as diferenças.

Por isso defendemos que a ética, enquanto qualidade espiritual da vida em sociedade, deve ter um lugar de destaque na construção do diálogo intercultural. E no caminho da educação escolar indígena, deve servir para definir a natureza e o propósito da educação e da socialização das novas gerações. Assim o debate da interculturalidade se torna transdisciplinar, pois exige um olhar filosófico, político, educativo, antropológico, etc. Mas transdisciplinar não apenas por ser uma salada de olhares diferentes, mas porque há uma concepção de abertura ao diálogo, onde o conhecimento não pode ser construído e alcançado apenas desde posições monológicas.

Falamos em cidadanias interculturais, onde os direitos não sejam reduzidos a uma vivência individual, pois somos seres que vivemos em coletividade, a língua e a cultura não são fenômenos pessoais, pois a cidadania deve reconhecer isso, e o exercício pleno dos direitos deve aprender a transitar pelos caminhos da dialogia e da tensão entre o pessoal e o coletivo. Assim, poderemos contribuir na construção de uma nova sociedade, que ainda espera, dormida sob o pântano do conformismo e do medo. A interculturalidade clama por uma revolução, por uma transformação, e ela será a luta concreta pela história.

Referências

BAKHTIN, M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 1997 [1929].

GASCHÉ, Jorge. De la educación intercultural indígena a la educación intercultural para todos en América Latina. IIAP-Iquitos, CNRS-París (\PON-ART\52CIAM\JG-Ponencia-1-Sevilla0706). http://fucaicolombia.wordpress.com/2008/04/02/de-la-educacion-intercultural-indigena-a-la-educacion-intercultural-para-todos-en-america-latina/. (consulta em 15/07/2009)

MC LAREN, Peter. Multicultiralismo Revolucionário. México: Siglo XXI, 1997.

PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DO CURSO LICENCIATURA INTERCULTURAL. Carvalho, F.; Fernandes, M.; Repetto, M. (Organizadores). Boa Vista: Editora UFRR, 2008.

SIMMEL, Jorge. Sociología. España: Espasa, 1939.


[1] Professor na área de Ciências Sociais do Curso Licenciatura Intercultural, Núcleo Insikiran de Formação Superior Indígena, Universidade Federal de Roraima / Brasil. Bolsista Pós-Doutorado CAPES/MEC-Brasil: Pesquisador visitante no “Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social” (CIESAS/México).

SOBRE OS DIAS



já cansei de sofrer pelas madrugadas
a dor agora é diária
ininterrupta
sem hora marcada

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Mistérios

Maxim Repetto

Que mistério é esse que navega rio acima,

abrindo as águas profundas ao seu passo?

Será um monstro mítico?

Um desejo?

Uma agonia?

Uma saudade?

Uma inconseqüência?

Que mistério é esse

Que aparta as águas do Uraricoeira?

O certo do errado?

A alegria da dor?

O velho do novo?

Que mistério é esse

que aparece e desaparece,

boiando e mergulhando

como as memórias fantasmas

de nossas vidas?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Subir e Subir

Maxim Repetto

Como um caranguejo subi de entre as raízes gigantes às árvores aquáticas das selvas amazônicas, trepando por cipós enroscados, escadas de macacos até as copas verdes de galhos que se enroscam nas bases cada vez mais altas de prédios curtidos em cimento que se levantam sobre as cidades torcidas da América Latina, habitadas por seres mais esquisitos do que eu, colonias pre-hispanas, cemitérios das guerras da invasão colonial. Espectros com mais braços, com mais pinças, mais olhos e desejos mais obscuros, eram os espíritos dos seres milenares destruidos pela historia insana do continente americano.

Em cima das árvores, por sobre as copas dos edifícios, onde as janelas de nossas vidas nos mostram um mundo interior que somente vemos ao desprender-se nossa alma do corpo, com quadros psicodélicos e fotos nuas penduradas a espera da visita de espectadores que chegarão só depois de mortos. Ali, onde ao entrar pelas varandas aos prédios intumescidos na umidade planetária, uma escada sem degraus nos escorrega novamente até as profundidades de onde apenas se nasce através das raízes submersas que sustentam a vida.

Ao subir, nascemos como nossos filhos, melados em óleos e placentas, untados nos resto do amor, ou entre os pedaços de nossos erros. E como filhos que nascem com dentes afiados, nossos filhos, ao igual que nós, cortam seus cordões umbilicais mordendo com suas bocas e bebendo o sangue de suas mães, mamamos nos peitos muchos e já chupados até o cansaço pelos descendentes das Coyotes capitalinas nas colinas do mundo.

E se escorregamos no meio da subida, antes de entrar pelas janelas românicas abertas nas árvores da vida, queríamos gritar como os bebés depois de receber duas palmadas nas costas, pendurados pelos pés nas mãos dos Deuses, pedindo o colo de nossas genitoras, cegos de medo, apenas sentindo o cheiro do leite que nos guia até as partes mais altas da floresta.

Subir e descer por entre as raízes da vida é mais que um plano divino, é uma experiência profana bastarda, contra natura. O homem se fazendo assim mesmo. A mulher parindo-se assim mesma. Nascendo e morrendo, subindo e descendo.

Agora que olho para trás na minha vida, prestes a entrar novamente na janela do meu cérebro, como as crianças brincando mil vezes nos escorregadores dos parques, vejo o sol no horizonte, por trás das nuvens de poluição eterna, vejo meus filhos, como uma manada de caranguejos amarrados numa corda, tentando sair das profundezas e escalar as raízes de suas próprias árvores, impúberes e cegos na penumbra da floresta, sob os galhos das árvores.

La Papa en la Cazuela

Maxim Repetto

No es cualquier papa, es la papa en la cazuela!

Papas en cocidos o en caldos no tienen el mismo sabor. Yo que ya me hice hombre papa, apenas alimentándome de tubérculos y cocido y molido me hice papilla de niños sin dientes, de ancianos que lo único que les quedaba en la boca era la lengua, de enfermos y convalecientes en los sanatorios de nuestro continente. Y aunque la papa latino americana no sea una, sino mil: rojas, moradas, blancas, amarillas, verdes, cafés, chicas, grandes, sureñas, nortinas, chilotas, andinas, amazónicas, costeñas, serranas, pantaneras, selváticas, dulces, saladas, amargas, venenosas, híbridas, genéticamente modificadas y hasta degradadas hoy por transgénicos y por la Montsanto, la papa es hija legítima de la Pacha Mama.

Papas putrefactas cocinadas al vapor como quesos Rockefort, negras y enmohecidas, sabrosas y delicadas.

Pues fue en Ciudad de México, en El Chileno de Colonia del Valle, que descubrí que la papa en la cazuela chilena no es lo mismo que una mosca en la sopa brasileña. Que los porotos verdes, que el choclo, el zapallo, el cilantro, la cebolla, el arroz, la carne o el pollo, la sal y el agua, se combinan y le dan ese sabor especial, que solo mi abuela Maria conseguía, como las pantrucas en Recoleta y el pastel de choclo en Ñuñoa.

Me creía hombre, después de haber vivido mas de una década en las selvas y sabanas sudamericanas, después de haber caminado con mi machete el continente tierra adentro, después de cazar fieras salvajes en los montes y pescado Pirarucus gigantes enfrentando a las terribles Piranhas en el lavrado del Maruwai, en Roraima.

Pero cuando la cuchara me trajo los recuerdos a mi boca, lloré como un niño con hambre mientras le calientan su puré, sus colados y su sopa. Lágrimas que, como la leche, disuelven las papas cocidas debajo del tenedor.

Cucharada tras cucharada hice de vuelta el camino hasta la cocina de mi madre, que también se llama Maria, en Maipú.

Desde la calle los tacos con guacamole y chile mexicano me miraban perplejos, las papas duquesas con altanería, las papas a la francesa, con desprecio, las papas con queso, con envidia. Y las papas cocidas, pobrecitas, sabían que solo el agua no les daba esas propiedades que la papa en la cazuela tenía.

La carne estaba impregnada en los poros de la papa, mientras los porotos verdes colgados en la cuchara, eran como piratas al asalto de un buque fantasma, en el caribe de mi boca, mientras mis dientes se enfrentaban a los granos amarillos de los marineros arrancados de la coronta, que de cuero grueso y almidonados, se infiltraban hasta el fondo de mi guata.

Suave y delicada la papa de la cazuela se impregnaba en las encías, se metía entre los dientes, se sumergía debajo de la lengua, mientras mis lágrimas le ponían mas sabor a la cazuela, cuando cerraba los ojos para comparar el movimiento en el plato con las olas en el Pacífico sur de mi Viña del Mar mirada desde los cerros.

El ají picante mierda, multiplica el sudor en la mesa y el vino tinto divide las fibras de la carne, deshaciéndolas en la boca blasfema.

La lengua, que como cámara mortuoria para la papa mordida, era su tumba y su cajón, me recordaba lo que era estar vivo, mientras seguía llorando desconsolado, viendo que el caldo se secaba y en este mar de nostalgias, quedaban apenas tres barcos naufragados en un dique seco: la carne, el zapallo y la papa.

Los porotos verdes y los choclos que sobraban, como peces moribundos saltaban para dentro de la cuchara, en un último desespero, comprendían ahora lo que es estar donde las papas queman.

Y cuando puse la última cucharada en la boca, y el ají picó por última vez y bebí el postrero tinto litreado, tragando lentamente y levantando la manzana de mi garganta ... glup!, supe que no hay otra papa como en la cazuela, como no hay otra abuela o otra madre, esa que nos quiere y nos espera, hasta que podamos nuevamente estar frente un plato hondo y humeante, con una gran papa cocida en el medio del cariño y del amor materno.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

PENSAMENTO do DIA de São Nunca

Todo homem dedicado a uma causa MUITO nobre pode vir a ser um grande homem...
Todo grande homem MUITO dedicado a uma causa nobre pode crescer ainda mais em tamanho; basta, para isto, que tenha uma mulher insatisfeita com sua dedicação e um outro alguém dedicado à nobreza da causa dela...

Uraricoeira

Maxim Repetto

Quantos dentes podem reluzir

num redemoinho

na vazante do rio Uraricoeira?

Serão mais dentes que metros de fundura?

Será uma tocaia a minha espera?

Minha carne à isca feiticeira?

Meu sangue o perfume afrodisíaco

que excita os répteis dormitando no fundo?

Meus passos um cochicho nos ouvidos

do Jacaré Açu no meio do redemoinho?

Os círculos concêntricos na água

rezas hipnotizadoras me convidando

a um mergulho fatal?

Às seis horas da manhã

tomava banho no Uraricoeira

a premonição de uma morte,

da minha morte social,

da minha separação,

do meu estrago total.

Apareceu da nada uma moça,

uma miragem,

uma índia que me aparecera em sonhos

em outras vidas,

de cabelos negros e suaves,

de cochas firmes e poderosas,

cheirando uma implacável pele morena,

banhando desnuda,

escondendo seus seios firmes

entre seus cabelos soltos e longos.

Me chamou com suas mãos e dedos,

Sorrindo a danada chamou por meu apelido

Que ninguém conhece,

com a graça das jovens na beira do salão,

como insinuando estar sozinha,

carente, pronta para todo,

inclusive para me golpear com seu rabo

quando eu chegar na distância certa,

me empurrando para sua boca

de jacaré fêmea,

para me beijar uma vez só e para sempre.

Sua cabeça negra de Açu

era o apelo de uma refeição,

um chamado da vida,

um beijo negro sem língua,

uma lembrança da fragilidade,

um abraço maldito,

o eco nas cavernas profundas das águas

que agitam ondas suaves contra o vento,

duas estrelas cadentes acesas na penumbra da noite,

duas narinas soltando o bafo dos pulmões arcaicos durante o dia.

Um chamado mágico e sedutor

enquanto seus olhos dançavam o ritmo cadente

das águas aparentemente calmas no remanso do rio.

Logo um estalo,

do nada,

uma onda infernal,

a força total do seu corpo,

o bote da fera no esforço carnal,

apenas num piscar de olhos,

depois apenas o silencio fatal,

vi desde dentro de suas mandíbulas

as últimas luzes de seus olhos úmidos me devorando,

degustando esta carne máscula,

dilacerada, esmagada e partida.

Tudo isso

enquanto a última ponta do seu rabo escamoso

desapareceu

no fundo do rio,

entre os banzeiros da balsa da vida

que nos levará até a outra margem

encantados e estragados.

ROMEU E JULIETA

O amor me bandou
Esculachou com a minha moral
Desceu o morro sem a menor compreensão
Me deixou passado
Presente sem jeito, sem fôlego, sem respiração
De olhos virados e completamente sem ação

O amor me atirou o horizonte
Provocou minha crise, o infinito
Me pegou num instante
Humilhou, arrastou, me usou

O amor, não me dou.