Maxim Repetto
num redemoinho
na vazante do rio Uraricoeira?
Serão mais dentes que metros de fundura?
Será uma tocaia a minha espera?
Minha carne à isca feiticeira?
Meu sangue o perfume afrodisíaco
que excita os répteis dormitando no fundo?
Meus passos um cochicho nos ouvidos
do Jacaré Açu no meio do redemoinho?
Os círculos concêntricos na água
rezas hipnotizadoras me convidando
a um mergulho fatal?
tomava banho no Uraricoeira
a premonição de uma morte,
da minha morte social,
da minha separação,
do meu estrago total.
uma miragem,
uma índia que me aparecera em sonhos
em outras vidas,
de cabelos negros e suaves,
de cochas firmes e poderosas,
cheirando uma implacável pele morena,
banhando desnuda,
escondendo seus seios firmes
entre seus cabelos soltos e longos.
Sorrindo a danada chamou por meu apelido
Que ninguém conhece,
com a graça das jovens na beira do salão,
como insinuando estar sozinha,
carente, pronta para todo,
inclusive para me golpear com seu rabo
quando eu chegar na distância certa,
me empurrando para sua boca
de jacaré fêmea,
para me beijar uma vez só e para sempre.
era o apelo de uma refeição,
um chamado da vida,
um beijo negro sem língua,
uma lembrança da fragilidade,
um abraço maldito,
o eco nas cavernas profundas das águas
que agitam ondas suaves contra o vento,
duas estrelas cadentes acesas na penumbra da noite,
duas narinas soltando o bafo dos pulmões arcaicos durante o dia.
enquanto seus olhos dançavam o ritmo cadente
das águas aparentemente calmas no remanso do rio.
do nada,
uma onda infernal,
a força total do seu corpo,
o bote da fera no esforço carnal,
apenas num piscar de olhos,
depois apenas o silencio fatal,
vi desde dentro de suas mandíbulas
as últimas luzes de seus olhos úmidos me devorando,
degustando esta carne máscula,
dilacerada, esmagada e partida.
enquanto a última ponta do seu rabo escamoso
desapareceu
no fundo do rio,
entre os banzeiros da balsa da vida
que nos levará até a outra margem
encantados e estragados.
Amazônia e muitas outras coisas, gostei muito da falta de respiração que senti ao ler o texto.
ResponderExcluirValeu