Maxim Repetto[1]
Muito falamos no conceito de interculturalidade, especialmente no contexto do Curso Licenciatura Intercultural, na UFRR. Mas será que temos clareza sobre o que isso pode chegar a significar? Pois os conceitos podem ter diversas acepções e inclusive às vezes sentidos opostos, dependendo de quem use, como e para que.
Utilizar este conceito sem um senso crítico que questione de forma clara sua história e, ao mesmo tempo, o confronte com a situação específica de Roraima e da Amazônia, podem levar à defesa de formulas alienantes submetidas aos processos políticos e sociais de exploração capitalista. Uma proposta intercultural sem análise crítico poderia cair nas armadilhas da "utopia angelical" da interculturalidade, como argumenta Gasché (2008).
Nós mesmos, no Projeto Político Pedagógico do Curso Licenciatura Intercultural (2008), definimos a interculturalidade como um processo de diálogo entre culturas. Hoje vejo que é necessário aprofundar essa definição, pois somente o “diálogo” não garante a construção de novas formas de convívio numa sociedade mais justa, que ao final de contas é o objetivo superior da educação. E nem garante um processo educativo mais participativo e menos alienante.
Contudo, o sentido do diálogo entre culturas refere-se não apenas a desenvolver capacidades para ouvir e falar, mas sobretudo, de refletir e pensar. Isto último numa perspectiva dialógica, que não deve remeter apenas a idéia de um colóquio entre dois (emissor e receptor), mas sim a uma discussão polifônica (BAKHTIN, 1997), sustentada por diferentes referências espaço-temporais, onde idéias, opiniões, conceitos, percepção sobre os processos históricos e do próprio mundo, devem ser compreendidos no complexo emaranhado de situações e atores envolvidos, articulados e desarticulados em diálogos nem sempre claros e isentos de conflitos.
Considero, nesta perspectiva, que quando no curso Licenciatura Intercultural se fecham as portas do diálogo com argumentos excludentes, como o fato de vários de nós não sermos indígenas, ou algum de nós não ser brasileiro, cai-se no engano de pensar que a interculturalidade é apenas um desfile folclórico, onde só podem ser aceitas as idéias próximas às de quem fala. Pois o verdadeiro diálogo implica em aceitar que há opiniões diferentes às nossas, mesmo que não se concorde com elas. Da mesma forma, realizar acusações supérfluas e sem a presença dos acusados, não contribui à compreensão e a superação dos conflitos. Além de negar o direito básico a resposta, base sem a qual o diálogo não existe. Sabemos que o conflito é parte da vida em sociedade (Simel, 1999), mas a sociabilidade nos exige buscar mecanismos para superar os mesmos. E é isso que nutre o debate sobre interculturalidade, a busca de mecanismos de diálogo, de participação e de resolução de conflitos.
Estas considerações são pertinentes já que a interculturalidade surge desde a América Latina, denunciando o Estado monopólico, e às políticas integracionistas e homogeneizadoras concretizadas na idéia da tutela imposta aos povos indígenas. Posiciona-se contra políticas educativas tão arraigadas que promovem um “branqueamento” cultural e a submissão a planos de estudos e às exigências de formulação de projetos políticos pedagógicos nas escolas indígenas, por não promover, ao mesmo tempo, uma reflexão crítica sobre o mundo. As políticas de bilingüismo na prática impuseram o que Profa. Maria do Socorro Pimentel chama de bilingüismo de transição, pois se alfabetiza na língua indígena, para logo impor na escola todo um processo de letramento submetido a cultura e língua nacional.
Confusões como esta tem feito da DEMOCRACIA, um sistema falho e ao serviço de setores dominantes que cada período eleitoral nos iludem com candidatos que nos prometem o céu e a terra. E caímos nessas armadilhas quando achamos que a mera participação em processos eleitorais poderá mudar a situação de exploração que vivem as comunidades indígenas. Mas, esquecemos que nas bases, nas comunidades, estas idéias não estão claras. Há confusão, e pensamos que partir para um confronto eleitoral nos dará uma vitória, que por efêmera, nos revela logo após dos processos eleitorais, que a principal derrota, política e eleitoral, foram historicamente nas urnas das próprias comunidades indígenas. Isso por falta de diálogo, por não esclarecer o que significa a participação em sociedade e quais são os desafios, seja para os povos indígenas, como para o conjunto da sociedade.
Discutir Interculturalidade nos exige, também, discutir as condições materiais do diálogo polifônico. Não pode apenas ficar numa perspectiva conceitual e teórica, deve ter bases sociais, políticas e econômicas.
O conceito do Multiculturalismo, como trabalhado nas sociedades anglosa-xãs, em especial nos Estados Unidos, sob o amparo da democracia liberal, entendendo o liberalismo como o campo filosófico do capitalismo, tem chegado até posições dogmáticas e totalitárias, criando a ilusão de que apenas o reconhecimento da diversidade permite a inclusão e a participação. Assim o “pluralismo pode chegar a sugerir que os indivíduos incorporem valores diferentes em um único ponto de vista e que devem permanecer eqüidistantes de todo dogma” (Mc Laren, 1997, p. 297). Transformando assim a Democracia num vinculo formal entre indivíduos abstratos, desprovistos de cultura e de sua especificidade subjetiva, de forma que a democracia liberal reproduz uma compreensão coletiva do “individuo”. Transformando-se numa falsa promessa do capitalismo, que o suposto consenso disfarça e oculta.
Assim como a democracia, a interculturalidade não pode ser apenas uma regra de procedimentos, mas uma floresta barulhenta onde os grupos sociais, e não apenas indivíduos isolados e desterritorializados ou pseudo iluminados, possam concretizar sozinhos o espírito da participação. Não se trata apenas de construir um salão onde o consenso permita ouvir o silêncio da unanimidade. Acreditamos que a polifonia de vozes deve falar, e alvorotar os salões do poder, fazer sentir as diferenças.
Por isso defendemos que a ética, enquanto qualidade espiritual da vida em sociedade, deve ter um lugar de destaque na construção do diálogo intercultural. E no caminho da educação escolar indígena, deve servir para definir a natureza e o propósito da educação e da socialização das novas gerações. Assim o debate da interculturalidade se torna transdisciplinar, pois exige um olhar filosófico, político, educativo, antropológico, etc. Mas transdisciplinar não apenas por ser uma salada de olhares diferentes, mas porque há uma concepção de abertura ao diálogo, onde o conhecimento não pode ser construído e alcançado apenas desde posições monológicas.
Falamos em cidadanias interculturais, onde os direitos não sejam reduzidos a uma vivência individual, pois somos seres que vivemos em coletividade, a língua e a cultura não são fenômenos pessoais, pois a cidadania deve reconhecer isso, e o exercício pleno dos direitos deve aprender a transitar pelos caminhos da dialogia e da tensão entre o pessoal e o coletivo. Assim, poderemos contribuir na construção de uma nova sociedade, que ainda espera, dormida sob o pântano do conformismo e do medo. A interculturalidade clama por uma revolução, por uma transformação, e ela será a luta concreta pela história.
BAKHTIN, M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 1997 [1929].
GASCHÉ, Jorge. De la educación intercultural indígena a la educación intercultural para todos en América Latina. IIAP-Iquitos, CNRS-París (\PON-ART\52CIAM\JG-Ponencia-1-Sevilla0706). http://fucaicolombia.wordpress.com/2008/04/02/de-la-educacion-intercultural-indigena-a-la-educacion-intercultural-para-todos-en-america-latina/. (consulta em 15/07/2009)
MC LAREN, Peter. Multicultiralismo Revolucionário. México: Siglo XXI, 1997.
PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DO CURSO LICENCIATURA INTERCULTURAL. Carvalho, F.; Fernandes, M.; Repetto, M. (Organizadores). Boa Vista: Editora UFRR, 2008.
SIMMEL, Jorge. Sociología. España: Espasa, 1939.
[1] Professor na área de Ciências Sociais do Curso Licenciatura Intercultural, Núcleo Insikiran de Formação Superior Indígena, Universidade Federal de Roraima / Brasil. Bolsista Pós-Doutorado CAPES/MEC-Brasil: Pesquisador visitante no “Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social” (CIESAS/México).
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