segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Uraricoeira

Maxim Repetto

Quantos dentes podem reluzir

num redemoinho

na vazante do rio Uraricoeira?

Serão mais dentes que metros de fundura?

Será uma tocaia a minha espera?

Minha carne à isca feiticeira?

Meu sangue o perfume afrodisíaco

que excita os répteis dormitando no fundo?

Meus passos um cochicho nos ouvidos

do Jacaré Açu no meio do redemoinho?

Os círculos concêntricos na água

rezas hipnotizadoras me convidando

a um mergulho fatal?

Às seis horas da manhã

tomava banho no Uraricoeira

a premonição de uma morte,

da minha morte social,

da minha separação,

do meu estrago total.

Apareceu da nada uma moça,

uma miragem,

uma índia que me aparecera em sonhos

em outras vidas,

de cabelos negros e suaves,

de cochas firmes e poderosas,

cheirando uma implacável pele morena,

banhando desnuda,

escondendo seus seios firmes

entre seus cabelos soltos e longos.

Me chamou com suas mãos e dedos,

Sorrindo a danada chamou por meu apelido

Que ninguém conhece,

com a graça das jovens na beira do salão,

como insinuando estar sozinha,

carente, pronta para todo,

inclusive para me golpear com seu rabo

quando eu chegar na distância certa,

me empurrando para sua boca

de jacaré fêmea,

para me beijar uma vez só e para sempre.

Sua cabeça negra de Açu

era o apelo de uma refeição,

um chamado da vida,

um beijo negro sem língua,

uma lembrança da fragilidade,

um abraço maldito,

o eco nas cavernas profundas das águas

que agitam ondas suaves contra o vento,

duas estrelas cadentes acesas na penumbra da noite,

duas narinas soltando o bafo dos pulmões arcaicos durante o dia.

Um chamado mágico e sedutor

enquanto seus olhos dançavam o ritmo cadente

das águas aparentemente calmas no remanso do rio.

Logo um estalo,

do nada,

uma onda infernal,

a força total do seu corpo,

o bote da fera no esforço carnal,

apenas num piscar de olhos,

depois apenas o silencio fatal,

vi desde dentro de suas mandíbulas

as últimas luzes de seus olhos úmidos me devorando,

degustando esta carne máscula,

dilacerada, esmagada e partida.

Tudo isso

enquanto a última ponta do seu rabo escamoso

desapareceu

no fundo do rio,

entre os banzeiros da balsa da vida

que nos levará até a outra margem

encantados e estragados.

Um comentário:

  1. Amazônia e muitas outras coisas, gostei muito da falta de respiração que senti ao ler o texto.

    Valeu

    ResponderExcluir